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Home Textos & Cultura Amar e gostar: a chave das virtudes.
Amar e gostar: a chave das virtudes. PDF Imprimir E-mail
Textos & Cultura

picasso_mEnsaio sobre as três potências humanas e o papel central da distinção entre amar e gostar para o desenvolvimento ético do homem.

Texto de Antonio Jorge Pereira Jr  - Diretor Acadêmico do Departamento de Direito do Instituto Internacional de Ciências Sociais.

 

 


 

Para facilitar a percepção e distinção das três potências humanas, ou dimensões de conhecimento, apresenta-se abaixo quadro no qual se reuniram atributos próprios de cada uma. Trata-se de material desenvolvido quando da elaboração de tese de doutoramento na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, em 2006.

 

 

Dimensões ou potências humanas

Inteligência

Vontade

Afetividade

Ciência filosófica correspondente

Gnoseologia

Ética

Estética

Objetos de atração

Verdade

Bondade (Valores)

Beleza

Atos próprios (exemplos)

Conhecer, pensar, ponderar

Querer, decidir, deliberar, amar, comprometer-se

Sentir, apreciar,       deleitar-se, gostar

Posturas reducionistas

Racionalismo

Voluntarismo

Sentimentalismo

Tipos de educação diretamente implicados

Educação formal (escolar)

Educação ética

Educação artística

Efeitos da carência de formação

Prejuízo da capacidade de compreender o mundo e a si mesmo.

Prejuízo no exercício da liberdade e do amor: querer fraco, não dirigido a valores.

Hipertrofia da busca de prazer. Sobrevalorização do ter sobre o ser. Consumismo.

Resultado da Formação Integral

Aquisição de informações relevantes para compreender-se e compreender o mundo.

Desenvolvimento de virtudes e do exercício pleno da liberdade

Educação dos afetos e subordinação deles à dimensão ética.

 

Amar e gostar: atitudes diferentes

            Chama-se a atenção, primeiramente, à colocação dos verbos amar e gostar em quadrantes diferentes na tabela acima. Gostar é ato próprio da afetividade. Amar é ato da vontade. Traduzem atitudes diferentes e objetos diferentes de atração. Poucas vezes as pessoas se dão conta dessa extraordinária distinção. A falta de percepção dessa diferença explica muito das crises familiares.

Amar pressupõe conhecer, ou seja, possuir intelectualmente a forma do bem que nos atrai. Amar leva o sujeito a trabalhar para o bem do ser amado, a despeito de si próprio. Quem ama, gasta-se pelo bem do outro. Enquanto isso, gostar pressupõe experimentar, ou seja, viver a experiência sensorial de algo que nos deleita. Quando se gosta de algo - gostar vem de gosto - busca-se a própria satisfação na posse do bem que deleita. Quem ama, sai de si, transcende-se. Quem gosta, volta-se para si. Muitas vezes, para plena satisfação humana, amamos e gostamos simultaneamente, quando os dois movimentos apontam para o mesmo sentido. Mas outras vezes não. E nesses momentos que as virtudes fazem falta, para antepor ao desejo de satisfação imediata o esforço por alcançar um bem de mais alto valor. São dois verbos pertencentes a planos diferentes. Por isso podem dar-se simultaneamente, no mesmo sentido - amar e gostar - ou em sentidos opostos - amar e desgostar ou odiar e gostar.

Há um diálogo elucidativo, que vale a pena ser posto aqui, apesar de um pouco longo. Trata-se de uma conversa entre o monge e alguns dos personagens que participam do retiro coordenado por ele, em um dos Best Sellers dos últimos anos. Os grifos não estão no original:

 

"- É verdade, Simeão - a diretora concordou. - De fato, ontem à noite fui à biblioteca e procurei amor no dicionário. Havia três definições e eu as escrevi todas: número um, forte afeição; número dois, ligação calorosa; número três, atração baseada em sentimentos sexuais.

- Você vê o que eu quero dizer, Teresa? O amor é definido um tanto mesquinhamente, e a maioria das definições envolve sentimentos positivos. O professor de línguas me explicou que muito do Novo Testamento foi originalmente escrito em grego, e os gregos usavam várias palavras  diferentes para descrever o multifacetado fenômeno do amor. Se bem me lembro, uma dessas palavras era eros, da qual se deriva a palavra erótico, e significa sentimentos baseados em atração sexual e desejo ardente. Outra palavra grega para amor, storgé, é afeição, especialmente com a família e entre os seus membros. Nem eros nem storgé aparecem nas escrituras do Novo Testamento. Outra palavra grega para amor era philos, ou fraternidade, amor recíproco. Uma espécie de amor condicional, do tipo "você me faz o bem e eu faço o bem a você" Finalmente, os gregos usavam o substantivo ágape e o verbo correspondente agapaó para descrever um amor incondicional, baseado no comportamento com os outros, sem exigir nada em troca. É o amor da escolha deliberada. Quando Jesus fala de amor no Novo Testamento, usa a palavra ágape, um amor traduzido pelo comportamento e pela escolha, não o sentimento do amor.

- Pensando nisso agora - a enfermeira acrescentou -, parece bobagem tentar mandar alguém ter um sentimento ou emoção por alguém. Neste sentido, aparentemente Jesus Cristo não queria dizer que nós devemos fazer de conta que as pessoas ruins não são ruins, ou nos sentir bem a respeito de pessoas que agem indignamente. O que ele queria dizer era que devemos nos comportar bem em relação a elas. Eu nunca tinha pensado nisso dessa maneira.

A treinadora aparteou: - Claro! Os sentimentos de amor talvez possam ser a linguagem do amor ou a expressão do amor, mas esses sentimentos não são o que o amor é. Como Teresa disse ontem, "o amor é o que o amor faz".

- Falando nisso - acrescentei -, eu percebo claramente que há ocasiões em que minha mulher não gosta muito de mim. Mas ela permanece ao meu lado, de qualquer modo. Ela pode não gostar de mim, mas continua a me amar e manifesta isso por suas ações e envolvimento.

- Sim - o sargento acrescentou surpreendentemente. - Ouvi sujeitos me falarem muitas e muitas vezes o quanto amam suas esposas. Eles falam isso sentados nos bares, caçando mulheres. Ou pais que se derretem de amor pêlos filhos mas não conseguem separar quinze minutos do dia para ficar com eles. E alguns dos companheiros de Exército, que fazem grandes declarações de amor às garotas quando o que querem é ir para a cama com elas. Portanto, dizer e fazer não são a mesma coisa, não é?

- Você pegou a idéia - disse Simeão sorrindo. - Nem sempre posso controlar o que sinto a respeito de outra pessoa, mas posso controlar como me comporto em relação a outras pessoas. Os sentimentos variam, dependendo do que aconteceu na véspera! Meu vizinho talvez seja difícil e eu posso não gostar muito dele, mas posso me comportar amorosamente. Posso ser paciente com ele, honesto e respeitoso, embora ele opte por comportar-se mal".

Eis a descoberta da treinadora de basquete, na conversa com o monge: "Os sentimentos de amor talvez possam ser a linguagem do amor ou a expressão do amor, mas esses sentimentos não são o que o amor é". Essa frase esclarece muito acerca da natureza do amor e do sentimento ou afeto.

Podemos amar uma pessoa de quem não gostamos. Manifestamos amor quando fazemos livremente o bem às pessoas sem distinção de raça, credo, nacionalidade, time de futebol. Mas isso não significa que gostemos dessas pessoas: talvez não nos atraia conviver com elas, ou seja, talvez não nos deleite sequer estarmos próximos delas. Pense-se na Madre Teresa de Calcutá que servia, por amor, aos mais miseráveis. Com certeza não desfrutava de prazer sensorial algum quando os recolhia nas latrinas da Índia. Ela tratava com carinho os rejeitados da sociedade, com cheiro e aparência de podridão. Poderia não gostar deles, mas com certeza os amava.

Também nos momentos de discussão ou conflito nas relações familiares é fácil perceber a distinção. Quando os pais colocam os filhos de castigo, estes não gostam dos pais: têm a sensação desagradável, sentem raiva dos pais. Mas, apesar da raiva - sensação - os filhos continuam a amar os pais - bem-querença. E vice-versa.

Podemos também gostar de alguém que não amamos. Nessa situação, podemos mesmo simular a aparência de amor, quando na verdade queremos extrair do outro algo que nos satisfaz, mais que do que nos doarmos, de fato, ao seu bem. Sentimo-nos atraídos porque o outro nos torna a vida mais deleitável. Assim dizia a música, cantada por Zizi Possi: "Perigo é ter você perto dos olhos, mas longe do coração. Perigo é ter você assim sorrindo, isso é muita tentação". Podemos desejar alguém sem que isso signifique que queiramos o seu bem. Isso é uma falsificação do amor. O coração, sede do amor, vai além da questão sensorial e de deleite.

Compreende-se, assim, o equívoco em chamar de amor à relação sexual. Quantas vezes a relação sexual manifesta comércio sexual, sem a autêntica postura de doação com vistas a realizar o outro. O amor é uma realidade muito mais rica que a relação sexual, tantas vezes realizada, de fato, sem o autêntico amor. As relações perduráveis entre homem e mulher vão muito além. Constroem-se mediante  compromisso de amor, que ultrapassa a dimensão dos afetos. Vale a pena colar outro diálogo de O Monge e o Executivo. Simeão é o nome do monge. Mais uma vez, os grifos são nossos:

"O pregador contou: - Uma vez ouvi uma fita gravada por Tony Campolo, um pastor bastante famoso, conferencista e educador, em que ele fala de suas sessões de terapia para noivos. Ele diz que, sempre que um casal jovem o procura, ele costuma perguntar: "Por que vocês vão se casar?" A resposta costumeira, claro, é: "Porque nos amamos de verdade."A segunda pergunta de Tony é: "Vocês têm uma razão melhor do que essa, não é?" O casal se olha surpreso, sem compreender a pergunta."Qual poderia ser uma razão melhor do que essa? Nós de fato nos amamos! "Ele responde dizendo: "Sei que neste momento vocês trocam palavras apaixonadas e que os hormônios estão a todo vapor. Ótimo, aproveitem. Mas o que será do relacionamento de vocês quando esses sentimentos e sensações acabarem?" Como é de esperar, o casal se olha antes de responder num tom desafiador: "Isso nunca acontecerá conosco".

A sala explodiu em risadas.

- Vejo que alguns de vocês estão casados há muito tempo - meu  companheiro de quarto continuou. - Todos nós sabemos que os sentimentos vêm e vão, e é o compromisso que nos sustenta. Tony conclui a conversa com os noivos mostrando que cada casamento oferece uma oportunidade para uma união real e profunda, mas que só sabemos se somos capazes de construí-la quando a paixão inicial termina.

- Sim, sim, Lee - Simeão afirmou. - Esse mesmo princípio de compromisso se aplica à liderança. Os comportamentos que estamos discutindo hoje não são tão difíceis com as pessoas de quem gostamos. Muitos homens maus e mulheres más são bons e amigáveis com as pessoas de quem gostam. Mas nosso verdadeiro caráter de líder se revela quando temos que nos doar aos agressivos e arrogantes, quando somos colocados à prova e temos que amar as pessoas de quem não gostamos tanto. É nessas horas que descobrimos nosso grau de comprometimento. É aí que descobrimos a espécie de líder que de fato somos.

Teresa acrescentou: - Acho que foi Zsa-Zsa Gabor quem disse que amar vinte homens durante um ano é fácil se comparado a amar um homem durante vinte anos!

Simeão caminhou para o quadro e completou o diagrama.

- Em nosso modelo, ontem, dissemos que a liderança é construída sobre autoridade ou influência, que por sua vez são construídas sobre serviço e sacrifício, que são construídos sobre o amor. Então, por definição, quando vocês lideram com autoridade serão chamados a doar-se, amar, servir e até sacrificar-se pelos outros. Mais uma vez, amar não e como você se sente em relação aos outros, mas como se comporta em relação aos outros.

A enfermeira concluiu: - O que eu estou entendendo, Simeão, é que o verbo amar pode ser definido como o ato ou os atos de doação aos outros, identificando e atendendo suas legítimas necessidades. É mais ou menos isso?

- Lindo, Kim- foi a simples resposta".

No fim do diálogo os personagens, três homens e três mulheres que exercem liderança em diversos setores da vida profissional e o monge concordam na necessidade de determinadas virtudes para Amar de verdade, e criam com o seguinte diagrama.

AMOR E LIDERANÇA

Virtude

Descrição

Paciência

Mostrar autocontrole

Bondade

Dar atenção, apreciação e incentivo

Humildade

Ser autêntico e sem pretensão ou arrogância

Respeito

Tratar os outros como pessoas importantes

Abnegação

Satisfazer as necessidades dos outros

Perdão

Desistir de ressentimento quando prejudicado

Honestidade

Ser livre de engano

Compromisso

Sustentar suas escolhas

Resultados:

Serviço e Sacrifício

 

Pôr de lado suas vontades e necessidades;

buscar o maior bem para os outros

O afeto é fator de aproximação de pessoas, e, logo, de constituição de relações familiares entre homem e mulher. Mas não é suficiente para consolidar uma autêntica estrutura familiar. Construir uma relação que se pretende perdurável sobre afetos é erguer um edifício sobre areia movediça. Para uma família prosperar, os responsáveis precisam aprender a se amar. Amar, mais que sentir-se bem, é dar-se e doar-se. Para dar-se e doar-se, ou seja, para transcender-se, a pessoa necessita desenvolver virtudes que façam possível o amor.

As virtudes se forjam mediante renúncia paulatina a bens menores, que são deixados de lado para que se possa abraçar bens maiores. Com virtudes, protege-se a vida a dois. O amor, portanto, não é uma realidade de afetos melífluos, ainda que os afetos sejam fatores que impulsionam, facilitam e estimulam o amor. O amor é um compromisso de entrega e doação, atualizado cotidianamente, mesmo quando o gosto desconvida a servir ao amado. Numa sociedade educada para ser hedonista, cada vez menos as pessoas compreendem essa realidade. Sequer conseguem imaginar algo assim.



Cf. PEREIRA JÚNIOR, Antonio Jorge. O direito da criança e do adolescente à formação integral em face da TV comercial aberta no Brasil: o poder-dever de educar em face da programação televisiva. Tese de Doutoramento. Faculdade de Direito. Universidade de São Paulo, 2006.

Cf. HUNTER, James. O Monge e o Executivo. São Paulo: Sextante, 2004, p. 75-77.

Cf. HUNTER, James C.. O Monge e o Executivo. São Paulo: Sextante, 2004, p. 94-95.

Cf. HUNTER, James C.. O Monge e o Executivo. São Paulo: Sextante, 2004, p. 96.