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Texto de Antonio Jorge Pereira Jr - Diretor Acadêmico do Departamento de Direito do Instituto Internacional de Ciências Sociais.
É possível obter êxito profissional e seguir padrão elevado de valores ao mesmo tempo? Ou seja: é possível ter sucesso e ao mesmo ser uma pessoa autenticamente realizada? Trajetórias de vida Há trajetórias de vida que mostram que isso é possível. Ao mesmo tempo, conhecemos biografias dramáticas, de pessoas que adotaram o ter como sucedâneo do ser. Neste último caso, as escolhas erradas se mostraram escolhos. Sem a devida percepção da qualidade da escolha, os adeptos do ter-sem-ser privam-se do exercício autêntico da liberdade e preferem a miragem do sentimento de liberdade. Sentem-se livres, sem serem livres de verdade. E essa sensação anestesia a percepção do erro. Abortam a liberdade, enquanto pensam promovê-la. Esse diagnóstico deriva da contemplação de suas vidas. Com o tempo, chegam à frustração existencial. E o sentimento de liberdade fenece. Livre comprometimento A opção autenticamente livre favorece a construção da felicidade humana. O comprometimento com o que é autenticamente bom leva a pessoa a satisfazer-se de modo pleno. Por vezes, o sentimento que acompanha o caminhar do compromisso parece denunciar falta de liberdade. Mas, o tempo mostra que não: na estrada da realização plena, pede-se como pedágio o sacrifício de alguns prazeres imediatos, de vez em quando. Para que a pessoa compreenda essa dinâmica e se comprometa, é necessário que a saiba, afinal, a que nível de excelência pode e deve chegar o homem para ser plenamente feliz. E quem é o homem, afinal de contas? O que realiza e torna feliz uma pessoa? *** Universidade: a serviço da sabedoria? A boa instrução acerca da natureza humana e dos valores éticos colabora para a descoberta da senda de realização substancial (realização simpliciter). A educação familiar e escolar deveriam fornecer bases para que cada sujeito pudesse mover-se de forma adequada em direção à sua felicidade. Mas, essa instrução tem se tornado incomum. Em especial, o ensino universitário, que marca o último estágio da transição da adolescência para a vida de adulto, deveria colaborar para o desenvolvimento de uma sabedoria superior. Educação acadêmica: índice de felicidade A vida e a educação universitária deveriam servir de índices e de catalisadores para os amplos horizontes de uma autêntica evolução interior. O estudante do ensino superior deveria experimentar, desde o primeiro ano, um impulso para ser melhor, e motivar-se a buscar a excelência humana. Desse modo saberia o que significa dignidade e felicidade humanas e poderia reverter esforços em favor do bem comum. No entanto, a maior parte dos meios acadêmicos não promove atividades que ilustram e auxiliam na realização simpliciter. Assiste-se exatamente o contrário. Do sonho ao desencanto A energia e o tempo de cada universitário poderiam ser investidos na assimilação de valores, no exercício de virtudes, na descoberta de ideais, no serviço às grandes causas. No entanto, com freqüência esse potencial é gasto em atividades que satisfazem apenas sob determinados aspectos, não essenciais. Uma séria de entretenimentos desprovidos de sentido e uma agenda de atividades raquíticas de conteúdo absorvem o melhor do tempo do universitário. E esse conjunto de atividades é apresentado como o caminho para a realização. Trata-se de uma propaganda enganosa. Lesa-se o estudante ao fazê-lo desperdiçar um dos tempos mais ricos e necessários para sua formação. Sabota-se seu anseio de descobrir respostas que comporiam fundamentos existenciais para a própria vida. Pouco a pouco ele vai sendo anestesiado em seu desejo de realizar coisas grandes. Sua atitude de abertura para o mundo cede lugar a um sentimento de resignado desencanto. Quando a Universidade não oferece subsídios para que o jovem encontre o que mais anseia, ou seja, respostas às questões que latejam no fundo de sua alma e que talvez esperasse encontrar em razão do acesso a um conjunto de saberes, a Mestres e estudantes dedicados ao conhecimento, ele sofre uma grande decepção. Opera-se um tipo de eclipse existencial, silenciosamente. O descaminho da decepção Sem um estímulo intelectual atraente, o jovem passa a despir-se de ideais nobres, continuidade dos sonhos de heroicidade que povoaram seu imaginário infantil. Sem confiança nos sonhos, torna-se frágil e vulnerável às ideologias que desnaturam o homem. E assim, os receptáculos dos ideais são rompidos. Desnudado de bons idealismos, começa o processo de corrupção: desertado de ideais, passa a desejar sensações e prazeres imediatos, oferecidos ad nauseam no ambiente social. Sucedem-se uma série de experiências, apresentadas como a estrada para a felicidade possível. Anestesiam-se os sentidos da alma. Aguçam-se os sentidos do corpo. O ter solapa o ser. Aos poucos, o jovem identifica-se com o meio, com a média: tende para uma permanente e pobre mediocridade. Cria-se uma corrente viciosa: a ausência do que lhe preencha o ser (um bem simpliciter, essencial), o faz transformar-se em um caçador de bens (bens secundum quid, acidentais). Entra no carrossel do ter, ter, ter. Está cooptado pelo sistema. Esse quadro de reprodução da mediocridade torna-se mais acentuado à medida que a experiência pessoal acumulada até então – até se chegar à universidade - não tenha fornecido subsídio para que a pessoa encontrasse respostas às inquietações existenciais fundamentais. Isso é cada dia mais comum em uma cultura de exaltação do supérfluo e do prazer imediato. Imunodeficiência moral e vácuo de sentido Qualquer pessoa sem referenciais sólidos e sem uma vivência consciente das condutas certas (virtudes) torna-se vulnerável às ofertas de um ambiente onde reina a mediocridade existencial, o relativismo e o individualismo. No vácuo de uma formação humana que deveria dar atenção às virtudes e aos valores, a pessoa passa a sorver a “água salgada” que se oferece no ambiente. A água salgada somente aumenta a sede. Não nutre a alma. Afoga-a. Infelizmente, na atualidade é difícil encontrar “água potável” nos meios de formação “superior”: os ideais mais nobres estão fora de moda. A ignorância acerca das verdades fundamentais costuma fazer que a realização simpliciter sofra um eclipse. Grassam os produtos de realização parcial, secundária (secundum quid). Desligados da realização essencial, substancial, principal (simpliciter), as realizações parciais (secundum quid) não fornecem auxílio para que a pessoa alce o vôo existencial que lhe daria sentido de grandeza e lhe faria feliz. A frustração, o fracasso existencial, nesse túnel de metas rasas, é questão de tempo. Raiz da falta de raiz A maior parte das pessoas, todavia, não é instruída ou educada para a excelência. Há milhares de universitários que conhecem quase nada acerca de si mesmos, e menos ainda acerca da Ética e dos anseios que preenchem a vida humana de realização e autêntica felicidade. Sem uma formação profunda acerca de temas fundamentais, as pessoas se movimentam em um oceano de possibilidades, sem bússola. Imersos nessa atmosfera, muitos passam a experimentar as condutas mais variadas para ver se, por meio delas, atingem a felicidade. Surge uma “roleta russa” de atitudes. Roleta russa porque a pessoa se lança a “experimentar-se” por meio de atitudes que lhe parecem boas sem que, muitas vezes, tal aparência corresponda à realidade. A opção preferencial por atitudes contrárias aos verdadeiros valores opera o distanciamento da capacidade de compreendê-los, dada a unidade humana entre agir e pensar (1). O círculo da vida Trata-se de um sistema cíclico: ao agir bem, a pessoa se aperfeiçoa e se torna mais livre. Ao agir mal – ao optar pelo que não lhe convém-, a pessoa se deforma e se escraviza. Sua visão de mundo é aprimorada ou turvada pelos seus bons ou maus hábitos. No caso do mau uso da liberdade, desenvolve-se um círculo vicioso: sem uma orientação correta, a pessoa adota o “sentir-se bem”, que não a transcende: não busca o “bem-ser” pessoal ou alheio, mas limita-se ao “bem-estar”, ao “bem-sentir”, individual. Nesse mecanismo, ela não encontra respostas para questões fundamentais. Passa a desconfiar que não existam explicações razoáveis. Ninguém ao seu redor fala delas. Antídoto da mediocridade Quando já se possui uma base familiar e/ou boas amizades que tenham possibilitado receber uma formação humana ou espiritual sólida, antes de se chegar ao “nível superior” da educação, a pessoa encontra-se mais protegida do “círculo vicioso”. Assim, quando uma pessoa de boa formação encontra um ambiente acadêmico de nível excelente, ela vai muito mais longe. Quando a mediocridade impera, mesmo aquele que possui boa formação tende a sofrer algum prejuízo, pois se movimenta em meio extremamente adverso, assim como peixes sadios em um lago poluído: em melhores condições ambientais viveriam melhor, se desenvolveriam mais. O “círculo vicioso” deve ser rompido e substituído por um “círculo virtuoso” para que a liberdade seja vivenciada verdadeiramente, e cresça por meio de seu uso correto. Para que isso se dê, é preciso oferecer aos jovens, do ensino médio à universidade, meios que lhes permitam compreender a grandeza da vida humana e tornem factível a realização dos grandes sonhos de heroicidade que um dia albergaram no coração. E estimular a correspondência a essa percepção. É preciso que eles travem contato com pessoas a temas que convidem à magnanimidade e sejam orientados a experimentarem-se em atividades de liderança pautadas por uma correta visão da dignidade humana, em atividades de voluntariado e em atividades de formação cultural lastreadas nos clássicos da literatura universal. É preciso que conheçam e se sintam atraídos aos grandes modelos de vida. Para vencer a mediocridade, o remédio é a magnanimidade. Quais ambientes estimularam a magnanimidade em outros tempos? A Universidade, a Igreja, e entidades sociais como clubes de discussão literária, filosófica, política, sociedades de serviço, etc, investidos de uma visão elevada do ser humano e de sua capacidade por ser melhor. Cabe-nos reconstruir esses espaços, segundo essa perspectiva. Trata-se de promover caminhos que possam educar as novas gerações para a autêntica liberdade e felicidade. ([1]) “Quem não age como pensa, termina por pensar como age”, dizia S. Tomás, explicando o fenômeno de justificação do erro, postura em que o ser humano incorre quando não opta pelo melhor, porque o melhor lhe custa Antonio Jorge Pereira Jr. : Mestre e Doutor em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, Diretor Acadêmico do Departamento de Direito do Instituto Internacional de Ciências Sociais - Centro de Extensão Universitária – IICS-CEU (São Paulo/SP). E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo. . |