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O Valor do Sofrimento E-mail

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No dia 10 de setembro, sexta-feira às 20h, teremos uma conferência sobre o valor do sofrimento com Lisandro Carmona. Como exemplo serão utilizadas cenas do filme: Shadowlands (Terra das Sombras).

Para aproveitar melhor a conferência se recomenda que se leia o roteiro abaixo (e se possível que assistam o filme antes...).


Shadowlands (Terra das sombras) – 1993

Clive Staples Lewis (1898-1963), irlandês, destacou-se em literatura medieval e apologética cristã. Autor da famosa série de livros infantis As Crônicas de Nárnia. Lewis e seu irmão Warren (três anos mais velho que ele) viveram a infância dedicando-se à leitura da seleta biblioteca particular da família, criando um mundo todo próprio, dominado por uma fértil imaginação e criatividade. Os seus pais eram cristãos anglicanos. Quando Clive tinha três anos “decidiu” adotar o nome de “Jack” pelo qual ficaria conhecido. Aos 10 anos, a morte prematura de sua mãe com câncer fez com que ele se isolasse ainda mais da vida comum dos garotos de sua idade, perdendo a fé, buscando refúgio em suas histórias e fantasias infantis. Alguns dizem que perambulou pelo ocultismo e mitologia. Realmente, na sua adolescência começou a se interessar pela mitologia nórdica. Gostava também de animais antropomórficos, como aparecem nas fábulas de Nárnia.

Em Oxford – já completamente ateu – conheceu vários escritores famosos católicos, como Tolkien (O Senhor dos Anéis), T. S. Eliot, G. K. Chesterton que o ajudaram a voltar à fé cristã. Primeiro voltou a acreditar em Deus, depois se fez cristão em 1931 e permaneceu na Igreja Anglicana. Tornou-se popular durante a II Guerra Mundial (onde serviu e foi ferido) por suas palestras transmitidas pelo rádio e por seus escritos, sendo chamado de “apóstolo dos céticos”.

Conhece Joy, uma escritora americana de análise penetrante e direta da realidade. No princípio, Jack não estava romanticamente envolvido com Joy, 17 anos mais nova do que ele. Ela era casada e tinha dois filhos jovens (Douglas, que aparece no filme, e David). Era uma comunista judia convertida ao cristianismo através da análise dos escritos de Jack. O marido de Joy – o também escritor William Gresham, alcoólatra – pediu o divórcio, e ela retornou à Inglaterra. Então a amizade com Jack aprofundou-se. Como um favor que lhe fazia, Jack casou-se com Joy civilmente para que ela pudesse ganhar a permanência na Inglaterra. Quase simultaneamente, Joy recebeu a pior notícia possível: ela tinha um câncer ósseo terminal. Literalmente esperando pela morte, Joy casa-se novamente com Jack em uma cerimônia religiosa anglicana, no quarto do hospital. Ainda que os médicos tenham predito a morte rápida de Joy, ela melhorou ao longo de 1957. Ela mudou-se para a casa de Jack e faz uma viagem de dez dias para um dos locais favoritos de Jack no mundo: o Old Inn, onde Jack tinha maravilhosas lembranças de sua juventude e agora podia compartilhar com sua esposa. Em 1960, o câncer voltou e não sobrava muito tempo a Joy. Ela falece em julho, com 45 anos. Jack morreu de falência renal e ataque cardíaco no mesmo dia em que o presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy foi assassinado (22/11/1963), com quase 65 anos de idade. Warnie, seu irmão, viveu dez anos mais.

Lewis buscou em suas teses encontrar uma moralidade comum em toda a humanidade, um padrão de comportamento ao qual todos deveriam aderir: a lei natural ou moralidade universal. Não seria apenas um instinto ou uma convenção social, mas algo mais profundo e próprio de toda a humanidade. Lewis já vendeu mais de 200 milhões de exemplares de 38 livros traduzidos em mais de 30 línguas. Lewis viveu uma vida marcada por intensa dor e intensa alegria. Sua fé foi testada além do limite. Em outras palavras, ele viveu a vida de uma típica pessoa humana que experimenta a alegria e a tristeza, a felicidade e a dor.

Lewis frisa que um dos maiores aprendizados e benefícios que o sofrimento pode (paradoxalmente) trazer-nos é abrirmos mão da nossa auto-suficiência e deixar-nos usar por Deus para a realização do seu propósito maior, que descobrimos pela fé. Lewis deixa claro que Deus vai fazer cumprir o seu desígnio através do bem e do mal. Resta a nós preferirmos servir a Ele “pelo amor e pela dor”. O sofrimento é o megafone de Deus.

“Deus permite o mal?”, perguntam-se os adultos quando algo sai errado. “Deus permite que coisas más aconteçam?”, perguntam-se os adolescentes quando o seu próprio mundo vem abaixo. Em Shadowlands, Anthony Hopkins faz o papel de Lewis, Debra Winger como Joy e Joseph Mazzello como Douglas. Shadowlands está entrelaçado com a experiência de vida de Lewis, cheia de perdas de pessoas queridas. A temática da existência do mal e da dor permeia todo o filme. De fato, o mal e o sofrimento constituem o principal argumento dos ateus contra o cristianismo: como pode existir um Deus (supostamente) bom e perfeito, ao mesmo tempo em que observamos tanto sofrimento, dor, injustiças, guerras e mal nesse mundo por Ele criado para ser perfeito? Além disso, se Ele existe, devia poder impedir o sofrimento, ou então, deve ser um deus mal ou impotente.

No filme – um pouco romanceado – vê-se como Lewis passou muitos anos da sua vida sem ser tocado. Joy lhe faz ver como sempre vencia em suas discussões, como procurava jogar em terreno conhecido, tinha medo de expor os seus sentimentos. Por muitos anos sua vida seguiu os mesmos padrões confortáveis. Ele é um professor e escritor, fuma cachimbo com o seu irmão em sua casa simples e cheia de tradições em Oxford. Com sua experiência em livros infantis, com sua ficção científica, com sua teologia popular, ele confortava a muitos falando acerca do lugar dos homens nos planos de Deus. Mas o que lhe faz mudar de vida é quando vivencia o amor e a dor em primeira pessoa. Ele é reservado, tímido, cheio de hábitos. Ela é direta, diz em voz alta o que ambos estão pensando. Juntos eles descobrem a ideia do sentido da vida humana sobre a terra que o conforta mais do que as suas teorias. Ele ganha a coragem de amar. E de fazer os outros felizes. E de sofrer por amor.

Precisamente nos momentos em que mais necessitamos de Deus – diz Lewis – Ele nos parece mais distante, ao passo que quanto mais pranteava a morte de Joy, mais se distanciava dela. Todo o seu dramático processo de penar e suas lamentações diante de Deus com a morte de Joy encontra-se descrito em Anatomia de uma Dor. A problemática da morte para o protestante gira em torno de como conciliar a bondade de Deus com o sofrimento que há no mundo.

“Amar é sempre ser vulnerável. Ame qualquer coisa e certamente seu coração vai doer e talvez se partir. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, você não deve entregá-lo a ninguém”.

Lewis se perguntava por que amar se a perda das pessoas queridas nos machuca tanto? Já não tinha respostas... só a vida que viveu. Duas vezes na vida se viu duramente confrontado com a dor. O menino – diante da morte da mãe – escolheu a segurança, e fugiu de tudo e todos, de Deus. O homem escolheu o sofrimento,e amar.