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Centro Cultural Itaim

Metafísica PDF Imprimir E-mail
Atividades Culturais

voarNo dia 12/03 o professor Paulo Oriente Franciulli veio ao Centro Cultural Itaim para dar uma palestra com o tema: Metafísica: o que é isto? Por que existe? De onde veio? Aonde vai? Qual o seu sentido?
Leia aqui o resumo da palestra...

I. o começo do nada: Lenda do Castelo Encantado, em "Orlando Furioso", de Ariosto: Orlando está à procura de Angélica. Em certa altura, torna-se vítima de um encantamento e vê a sua amada ser raptada por um desconhecido. Persegue-os e chega a um imponente castelo, onde os vê entrar. Atravessa a ponte levadiça, apeia e, depois de cruzar a grande porta de entrada, percorre os salões, palmilha os corredores, invade os quartos e explora os terraços. Tudo está deserto. Vagueia uma e outra vez pelos cômodos, sobe e desce escadas, remexe tapeçarias e cortinas, afasta quadros e móveis. Em vão. Quando desiste da busca e se afasta do castelo, escuta um chamado, vira-se e vê Angélica numa janela, acenando para ele, pedindo ajuda. Volta correndo e recomeça a busca, que novamente se mostra infrutífera. E assim uma e outra vez.

II. Definição de Metafísica: é a doutrina da essência das coisas. Conhece as causas primeiras e os primeiros princípios. Vem do grego metaphysiká (além da física). É o núcleo principal ou tronco da Filosofia.

III. Ponto de partida: desde sempre, o universo tem o poder de atrair e causar admiração nos homens. Também é instigante que o seu fundamento não pode ser conhecido de modo imediato. Por isso, sempre houve pensadores que procuraram alcançar um saber último e universal acerca da realidade. Partiram de elementos como o movimento (Parmênedes e Heráclito), as imperfeições (Platão), o ser das coisas (Aristóteles). Perguntas metafísicas: o que é isto? Por que existe? De onde veio? Aonde vai? Qual o seu sentido?

IV. Curiosidade: todo homem, desde o começo do uso da razão, tem uma "metafísica espontânea". Cada pessoa tem a sua ideia própria ou noção sobre o ser, a verdade, o bem, quem é o h, a substância e os acidentes, Deus como Causa do universo. A Metafísica filosófica parte desse fato para elaborar uma doutrina.

V. O que se estuda na metafísica:

- Causa última: é a que estende o seu influxo a todos os efeitos de uma mesma ordem (ex. o desejo de felicidade). Difere de causa próxima, que produz algo imediato (coração bombeia o sangue).

- Primeiros princípios: são os elementos internos que constituem as coisas e afetam o seu modo de atuar (Ex.: essência e ato de ser).

- Universais: a Metafísica abrange toda a realidade, não apenas uma parte dela, como é o caso das ciências particulares.

- O ente enquanto ente. Todas as coisas são entes, porque são. Na metafísica, o ente é estudado enquanto dotado do ser. Ente é o que é. Ser significa: estado de perfeição (o cavalo é veloz - tem a perfeição da velocidade), composição de sujeito e predicado (o cão é feroz; feroz é a qualidade do cão), designa a existência (a caneta é... = a caneta existe). O ato de ser foi definido poeticamente como: "o aroma da passagem de Deus, a celebração do eterno, a coroação do porvir."

- Transcendentais: o bom, o verdadeiro, o belo e o uno em doses máximas.

VI. Exercício: Cormac McCarthy, "Trilogia da Fronteira": um sujeito sonha que está sonhando consigo mesmo dormindo sobre uma pedra, num lugar montanhoso e espectral. Em dado momento, chegam os astecas, com seus trajes sacrificiais, trazendo uma jovem. O homem que dormia no segundo sonho acorda, e repara que está precisamente sobre a pedra em que a moça será imolada. Os índios vêm, tomam-no pela mão, e lhe mostram tudo o que há ao redor: o céu, o sol, as montanhas, o vento, a moça, a faca sacrificial. Ele entende, e deita-se na pedra, no lugar da vítima. Os índios o matam. A moça é solta.

 

VII. falando em matar, por que mataram a Metafísica?

- Porque ela compromete.

- Parte de/volta para uma realidade que, muitas vezes, não é a que queremos.

- Dá explicações que podem não ser agradáveis.

- Não há marxismo, ateísmo, agnosticismo, paganismo com metafísica, e vice-versa.


VIII. Por que choramos esse cadáver?

- Porque a realidade sempre acaba impondo-se.

- Ela ajuda a explicar as coisas (vamos ao essencial, e colocamos o que não é essencial nos seus devidos limites). Ex.: Como foi a excursão aos Marins? Substância: momento de esporte, lazer e convivência. Acidentes: fez calor, o dia estava radiante, um excursionista torceu o pé ao tentar agarrar a mochila que caia, apareceu um ecochato e os impediu de jogar as cascas de laranja no mato, etc. Ex.2: O que aconteceu no Bounty (1789)? Substância: motim do Ten. Charles, contra o Capitão Brigh, por este ter determinado a volta à Inglaterra em vez de permanecerem no Taiti. Acidentes: o Ten. Charles era jovem e de boa família, o Cap Brigh na verdade era Tenente, os habitantes do Taiti eram pagãos e de maus costumes, 18 marujos preferiram ficar com Brigh no escaler da morte a aderir ao motim, etc.

- É o antídoto do desespero: "Revista Bravo: Você é um documentarista reconhecido, que sempre zelo pela discrição. No entanto, em Santiago, resolveu se expor publicamente. Por quê? É uma autossabotagem? João Moreira Salles: Não, talvez seja exatamente o contrário - uma tentativa de me salvar, de me curar. Fiz Santiago pensando sobretudo em sanar as aflições que me rondavam a alma e que, de certo modo, ainda me atormentam. (...) [Eu] tinha 43 e atravessava uma intensa crise. Estava adquirindo a consciência muito profunda de que as coisas realmente passam e de que não conseguimos recuperá-las. Para mim, que não acredito em nada, que não alimento nenhuma fé metafísica, a morte e a passagem do tempo são problemas imensos, obsessões que sempre me acompanharam."

IX. O grande ponto: tudo isso não é meramente especulativo, mas afeta profundamente a nossa vida. Ex.: tudo advém da matéria: hedonismo, carpe diem ("A morte do Gourmet"); há um Ser que causou tudo isso: religiosidade ("Um mensageiro na noite"); tudo muda: relativismo, nihilismo, fatalismo ("Os Demônios"). Da metafísica dependem a ética, a psicologia, a antropologia.

X. fim de tudo: Há três espaços vitais no cosmos, cada um com o seu modo próprio de ser. No mar, vivem os peixes, que se calam; na terra, animais que gritam; no céu, pássaros que cantam. O próprio do mar é o silêncio; da terra, o grito; do céu, o canto.

O homem participa dessas três coisas: leva em si a profundidade do mar, carrega o peso da terra e altura do céu. (Hoje, resta ao homem só o grito, pois só quer ser terra, e tenta rebaixar a terra a altura do céu e a profundidade do mar. O homem se desintegra). A metafísica devolve a integridade ao homem. Convida-o de novo a calar e a cantar, abrindo-lhe as portas da profundidade do mar, e ensinando-o a voar e cantar pelo céu como os anjos. Ele é libertado do histrionismo da terra, sendo devolvido à profundidade do silêncio e à altura do canto.